'A gente não enxuga gelo, enxuga sangue': explosão de acidentes de motos faz 144 vítimas por dia no RJ

  • 01/08/2026
(Foto: Reprodução)
"A gente não enxuga mais gelo. A gente enxuga sangue." A frase do coordenador do Centro de Trauma do Hospital Estadual Alberto Torres, Marcelo Pessoa, resume o impacto da explosão dos acidentes com motos sobre a rede pública de saúde do Rio. Bombeiros atendem, em média, 144 vítimas por dia, uma a cada dez minutos. Enquanto isso, hospitais convivem com emergências lotadas e pacientes jovens que passam meses em recuperação, como mostrou a terceira reportagem da série especial do RJ2 sobre a "epidemia das motos" no Rio. Mais sobre a série do RJ2: Frota de motos cresce 65% no Rio em 10 anos e muda a mobilidade da cidade; veja por quê 'Descanso é sentado na moto': a rotina de quem passa até 18 horas fazendo entregas Nova rotina de bombeiros e hospitais A equipe de reportagem acompanhou uma equipe dos bombeiros durante um plantão. O rádio da corporação informou uma vítima desacordada em um acidente de moto. A ambulância seguiu em direção ao local, enfrentou dificuldades para avançar no trânsito e, finalmente, chegou ao atendimento. Pouco depois, enquanto a equipe ainda trabalhava no resgate, outras três ocorrências envolvendo motociclistas entraram na central. De janeiro a junho deste ano, o Corpo de Bombeiros realizou mais de 25 mil atendimentos a vítimas de acidentes com motocicletas — média de seis por hora. Acidentes de moto causam 75% dos resgates no RJ Moto caída sobre o canteiro central de via: número de acidentes de moto disparou no Rio Reprodução/TV Globo Os casos de acidentes de moto representam 75% de todos os resgates da corporação no estado. Em muitos casos, as vítimas têm ferimentos graves. "O impacto vai direto no corpo do motociclista", resume o tenente-coronel Fábio Contreiras, do Corpo de Bombeiros. "Na moto infelizmente não há absorção da energia do acidente. Todo o impacto vai diretamente no corpo do próprio motociclista." Corrida contra o tempo Em um dos atendimentos, o entregador Hugo Souza seguia para fazer uma entrega quando se envolveu em uma colisão. "Tava trabalhando, tava até com entrega. Mandei até o menino levar a entrega porque senão ia acabar atrasando." Em outro resgate, Leonardo César, também motoboy, relembra o momento do acidente: "A gente tá na correria para levar o pão de cada dia." Mais pressão, mais riscos, mais acidentes Flagrante de desrespeito: motociclista avança o sinal vermelho à frente de mulher com criança à espera de atravessar Reprodução/TV Globo Segundo Contreiras, a pressão por cumprir prazos e jornadas cada vez maiores ajuda a explicar parte do aumento dos acidentes. "Muitas vezes o motociclista quer chegar mais rápido, ultrapassa sinal vermelho, sobe na calçada ou desvia a atenção para olhar o GPS. Se ele ficar apenas um segundo olhando para o celular a 60 km/h, percorre cerca de 17 metros praticamente às cegas." Emergências lotadas O reflexo aparece nas portas dos hospitais. No Hospital Estadual Alberto Torres, referência em trauma em São Gonçalo, o coordenador do Centro de Trauma, Marcelo Pessoa, afirma que a maioria das vítimas é formada por homens jovens, entre 20 e 29 anos, justamente na fase mais produtiva da vida. Cada paciente mobiliza uma estrutura complexa. "São cirurgias de neurocirurgia, cirurgia vascular, ortopedia, cirurgia plástica... praticamente todas as especialidades do hospital participam do atendimento." Acidentes de moto sobrecarregam centros cirúrgicos no Rio Reprodução/TV Globo Além do custo financeiro, o médico destaca o impacto social provocado pelos acidentes. "Esses pacientes precisam de meses de recuperação e isso afeta toda a família." No Hospital Municipal Barata Ribeiro, na Mangueira, referência em ortopedia na capital, são realizadas cerca de 400 cirurgias por mês. A demanda provocada pelos acidentes com motos foi tão grande que a unidade deixou de oferecer um serviço de geriatria para ampliar o atendimento ortopédico. Pacientes internados contam que agora repensam o uso da motocicleta. Wesley Nóbrega, que passou por uma cirurgia após fraturar o joelho, diz que considera trocar a moto pelo carro. "Vai gastar mais tempo e mais dinheiro, mas isso aqui acho que não compensa." Efeito cascata na rede de saúde O secretário municipal de Saúde, Rodrigo Pinto, afirma que o aumento dos acidentes afeta toda a rede hospitalar. Segundo ele, pacientes que aguardam cirurgias eletivas acabam tendo procedimentos adiados porque os casos de trauma têm prioridade. "Esse volume vem crescendo e ocupando leitos que eram usados para outros pacientes." O diretor do Hospital Lourenço Jorge, Bruno Guimarães, afirma que cerca de 80% das cirurgias decorrentes de acidentes de trânsito na unidade envolvem motociclistas. Para Marcelo Pessoa, a única saída é a prevenção. "A gente não enxuga mais gelo. A gente enxuga sangue, o sangue desses pacientes que chegam com lesões muito complexas." O médico defende mais educação no trânsito e respeito às leis para reduzir um problema que já deixou de ser apenas uma questão de mobilidade. Segundo ele, cada imprudência que economiza alguns segundos nas ruas pode representar meses — ou até anos — de recuperação dentro de um hospital.

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/08/01/explosao-de-acidentes-de-motos-no-rj-serie-rj2-episodio-3.ghtml


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